A habitual noite fria da Taverna dessa vez veio acompanhada de forte chuva. Talvez esta tenha afastado muita gente de cá. Eu, em minha habitual mesa, um grupo de quatro amigos algumas mesas distantes e o vento conversando com pingos de água que insistiam em entrar por pequenas janelas. Claro, o garçom, um atendente no balcão. Para completar, uma banda tocando jazz embalava a melancolia que dançava entre as mesas, até tirar-me para dançar.
- Garçom, traz-me o que matar minha sede. – ele sabia o quê.
Bem, olhei para meus escritos, algumas linhas rabiscadas.
“Estático
Minha mente é um Deserto
Estático”Às vezes não é bom você conseguir incorporar seu poema. Alguém chama pelo escritor sozinho na mesa.
- Ei, escritorzinho, porque tu não nos acompanhas nesta rodada.
- Mas é claro amigo, ir-me-ei em dois segundos.
Juntei as folhas e rumei à outra mesa. O garçom já trazia meu copo, apenas gesticulei para que o levasse à outra mesa. Antes amassei o papel com o poema inacabado e o joguei no lixo. Vi que bateu no excesso sobre o lixeiro e caiu no chão. Se de boas intenções o inferno está cheio, o lixeiro já as transborda. Apenas encostei o papel no lixeiro e rumei definitivamente à mesa.
Estavam falando de mulheres. Nem tomei como surpresa. Se só há uma mesa na taverna, é claro que o assunto tem que ser mulheres. Se houvesse uma segunda, seria futebol, numa terceira política. Da quarta em diante não há regra.
Ao menos nessa mesa as mulheres ainda não eram mal faladas. Quatro almas salvas no purgatório, põe na conta. Dois falavam de seus amores realizados, os outros dois falavam de seus amores não realizados. Talvez seja por isso que falar bem das mulheres não seja um assunto tão corriqueiro: os que bem diziam, falavam que as mulheres eram suas caras-metades e que poderiam passar a vida toda com elas; os que mal diziam, falavam que as mulheres os trocaram por outros. Com tanta variedade de respostas, uma discussão para tomar o lugar poderia ser “quem é mais previsível, o homem ou a mulher?”.
Minhas últimas experiências com amores não são algo de se orgulhar, mas tentei.
Primeiro teu sorriso que peca por chamar a admiração que poderia ser dividida com seu lindo rosto. Sincera e inteligente. O que mais eu poderia querer? Que ela gostasse de mim como eu gosto dela.
Lembrava de cada (agora) vão momento em que dediquei toda a atenção do mundo a ela. Cada palavra que ela falou quando me disse que gostava de outro. Como eu fui besta em insistir em algo que já tinha final (e eu já sabia!). E o pior, continuar sob o feitiço.
A banda parou de tocar o melancólico jazz. Tarde demais, a minha mente se encarregou de continuar com o show de melancolia e sofrimento.
Bebi meu copo e a noite seguiu doce na Taverna. Apenas eu destoava da alegria do resto da mesa.