segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Encanto

Um educado beijo no rosto parece significar "você tem uma chance". O pior é o encanto ser breve e eu cair na real. Um telefone que toca parece que vai ser ela para dizer que me ama. Mas tudo dura até eu escutar a voz de outra pessoa. Já olho para ela e não sei mais o que sinto. Esperança, derrotismo, alegria, tristeza, tudo misturado. O travesseiro não parece mais confortável, a cama parece suja, o sono não é mais o mesmo.

Só a taverna continua fria e soturna, tão linda quando antes. O copo de cerveja continua tão sujo quanto antes. A cerveja tão amarga quanto antes. O virar do copo tão breve quanto antes. A noite na taverna seguiu triste como antes.

domingo, 21 de setembro de 2008

Domingo

Domingo é o último dia da semana e segunda é o primeiro, mesmo que a matemática prove o contrário. Não há lógica no fim de semana acabar no início, também como não há lógica o primeiro dia da semana ser o mais melancólico.

Melancólico final de um melancólico domingo. Todas as memórias da semana vêm a mente. O que você fez na semana? Isso torna o domingo mais melancólico. O que salva o domingo? O copo de cerveja que acabo de virar.

E a noite seguiu melancólica na taverna.

sábado, 20 de setembro de 2008

Memórias

Minhas memórias são minhas tatuagens cerebrais. Se elas ficam, ficam. Não consigo esquecê-las. Elas também têm dois nomes: lembranças, se são boas ou passado, se são ruins. Uma vez escutei de um professor que as lembranças são manipuláveis, qualquer um lembra o que quer ou pode mudar o que lembra. Eu não tenho essa sagrada habilidade. Queria eu.

Minhas lembranças são tatuagens que não me arrependo. Inclusive, gosto de ficar olhando para elas e tenho orgulho de elas serem permanentes e imutáveis. Também gosto de lembrar como minha pele foi cuidadosamente limpa e a tinta foi grudando nela. Imagino tudo em câmera lenta, para pensar por mais tempo.

Já meu passado eu prefiro deixar coberto com gaze colada com esparadrapo. Mas acontece que toda hora alguma coisa interfere na calmaria com que o esparadrapo vive. De vez em quando o esparadrapo solta e eu tenho que olhar para a maldita tatuagem, nem que seja apenas durante o tempo de colar outro esparadrapo. Mas não bastasse isso, basta apenas eu olhar a gaze para lembrar o passado. A gaze tapa minha visão, mas não tapa meu pensamento.

Ah memórias. Combinam tão bem com um copo de cerveja. O casamento perfeito. Então:

-Garçom, não deixes tu eu morrer de sede.
Bebi meu copo e a noite seguiu nostálgica na Taverna.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Sonho

“Eu não te quero”. Demorei quatro dias para entender esta frase. Entendi logo antes de ir dormir. Sonhei com ela. Ainda mais doce do que sempre foi. Sorria para mim. Corria entre flores, flores ofuscadas por ela. O céu parecia mais azul... talvez... quem ia prestar atenção no céu? Malditos sonhos, sempre atrapalham a vida. Bebi meu copo.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Amores

A habitual noite fria da Taverna dessa vez veio acompanhada de forte chuva. Talvez esta tenha afastado muita gente de cá. Eu, em minha habitual mesa, um grupo de quatro amigos algumas mesas distantes e o vento conversando com pingos de água que insistiam em entrar por pequenas janelas. Claro, o garçom, um atendente no balcão. Para completar, uma banda tocando jazz embalava a melancolia que dançava entre as mesas, até tirar-me para dançar.

- Garçom, traz-me o que matar minha sede. – ele sabia o quê.

Bem, olhei para meus escritos, algumas linhas rabiscadas.

“Estático
Minha mente é um Deserto
Estático”


Às vezes não é bom você conseguir incorporar seu poema. Alguém chama pelo escritor sozinho na mesa.

- Ei, escritorzinho, porque tu não nos acompanhas nesta rodada.
- Mas é claro amigo, ir-me-ei em dois segundos.

Juntei as folhas e rumei à outra mesa. O garçom já trazia meu copo, apenas gesticulei para que o levasse à outra mesa. Antes amassei o papel com o poema inacabado e o joguei no lixo. Vi que bateu no excesso sobre o lixeiro e caiu no chão. Se de boas intenções o inferno está cheio, o lixeiro já as transborda. Apenas encostei o papel no lixeiro e rumei definitivamente à mesa.

Estavam falando de mulheres. Nem tomei como surpresa. Se só há uma mesa na taverna, é claro que o assunto tem que ser mulheres. Se houvesse uma segunda, seria futebol, numa terceira política. Da quarta em diante não há regra.

Ao menos nessa mesa as mulheres ainda não eram mal faladas. Quatro almas salvas no purgatório, põe na conta. Dois falavam de seus amores realizados, os outros dois falavam de seus amores não realizados. Talvez seja por isso que falar bem das mulheres não seja um assunto tão corriqueiro: os que bem diziam, falavam que as mulheres eram suas caras-metades e que poderiam passar a vida toda com elas; os que mal diziam, falavam que as mulheres os trocaram por outros. Com tanta variedade de respostas, uma discussão para tomar o lugar poderia ser “quem é mais previsível, o homem ou a mulher?”.

Minhas últimas experiências com amores não são algo de se orgulhar, mas tentei.

Primeiro teu sorriso que peca por chamar a admiração que poderia ser dividida com seu lindo rosto. Sincera e inteligente. O que mais eu poderia querer? Que ela gostasse de mim como eu gosto dela.

Lembrava de cada (agora) vão momento em que dediquei toda a atenção do mundo a ela. Cada palavra que ela falou quando me disse que gostava de outro. Como eu fui besta em insistir em algo que já tinha final (e eu já sabia!). E o pior, continuar sob o feitiço.

A banda parou de tocar o melancólico jazz. Tarde demais, a minha mente se encarregou de continuar com o show de melancolia e sofrimento.

Bebi meu copo e a noite seguiu doce na Taverna. Apenas eu destoava da alegria do resto da mesa.

Garçom

Todas as noites são frias na Taverna. Às vezes a neblina engrossa e não vejo o nível do copo de cerveja. Não vejo o que eu escrevi. Por sorte, hoje está tudo bem iluminado. Alguns mosquitos até arriscam um suicídio mirando a lâmpada segura por um fio. Um único fio. A lâmpada balança, pisca, mas continua acesa, a fonte maior de iluminação da taverna, ajudada apenas por tímidas velas escoradas nas paredes.

- Garçom, traz-me minha loira. Vem cá, brinda comigo este primeiro escrito.

O brinde fez derramar cerveja no meu papel e perdi aquele escrito, talvez para sempre. Meu primeiro escrito. Era meu primeiro escrito, agora o primeiro vai ser outro. Não há porque derramar mais nada. Bebemos os nossas acompanhantes.